ILDA PEREIRA

Nome, idade, onde vives, profissão 

Ilda Pereira , 36 (10/10/1981), S. Torcato (Guimarães), professora

Como começou a tua paixão pelo ciclismo?

A minha paixão é uma história de amor. Só depois de casar com o Bruno é que me percebi de quão aficionado ao ciclismo ele era e de como  lhe estava a fazer falta a bicicleta. Logo o entusiasmei a voltar à bicicleta e, como somos mesmo unha e carne e fazemos tudo juntos, também eu comecei a pedalar. Nunca me tinha passado pela cabeça competir até ao dia em que, para e só para não ter que ficar à espera do final da prova deles, o Bruno e um amigo me convenceram a participar. Não estava federada mas o atento comissário, o Sr. Teixeira, com o propósito de estimular a participação feminina, autorizou-me a competir. Foi a minha primeira prova e o meu primeiro pódio, em 2008. Depois, como o amor de que se cuida, os anos no ciclismo são com paixão.

Fotografia de Artur Gomes: https://www.facebook.com/pg/After-Glance-Photography-1493655763977979/

Conselhos que darias a quem começa agora a praticar ciclismo?

Ui… Dar conselhos? Que responsabilidade! Acho que se tem de ser feliz… Às vezes, quando falam comigo, nas mensagens que me escrevem, as pessoas dizem “Mas eu é na boa! É só por diversão!” Mas é precisamente isso: “na boa” e “por diversão”! Todavia, isto é muito subjetivo e carece de diferentes modos de medição. Eu sou feliz a fazer competição! Adoro! Se não fosse feliz, não o faria! Por exemplo, em 2013 fiz DH – adorei os treinos e odiei a competição. Nem todos temos de ser atletas mas todos temos o direito a ser felizes querendo sê-lo (ou não) e a poder admiti-lo! Por isso, se há conselho a quem começa agora, é essa: seja feliz afirmando como quer praticar ciclismo.

Qual o maior desafio/conquista que tiveste até hoje?

Mais uma pergunta de alto nível… O desafio é uma constante! Foi um desafio aparecer no cenário competitivo nacional de elites sem “escola” e impor-me! Foi um desafio integrar a equipa nacional e outras formações e não perder o foco da “ambição” na casa dos 30! É um desafio ser mulher e reivindicativa no ciclismo. A maior conquista? A que está por vir… É o querer mais que me motiva: foi o querer estar entre a nata das elites nacionais que me motivou; depois vieram as conquitas internacionais (a 1ª elite num prémio de montanha, a 1ª a vencer uma WMS, a 1ª a fazer os melhores pódios em provas como as UCI XCS Tour de Timor e La Leyenda del Dorado); agora é o querer por o meu nome e dos meus onde ainda não fui… A maior conquista é isto: o legado.

Fotografia: https://la-leyenda.com/

Qual o teu maior sonho/objectivo?

Eu quero morrer feliz. E, como não sei quando vou morrer, vivo neste estado de ser feliz com as coisas simples: com a amoreira a florir, um café da manhã, saúde para cumprir um treino (e cumpri-lo), o mimo dos gatos e dos meus, uma mensagem amiga, um prato de arroz de feijão… Este é o meu objetivo: ser feliz. O sonho é poder cumprir tudo o que me der vontade de explorar na bicicleta e deixar amigos por todos os países em que compito para depois, mais tarde, poder viajar por todo o mundo a visitá-los.

Qual a tua rotina de preparação antes duma prova?

Mónica, Mónica, Mónica… Como sempre bem e nessa semana fico ainda mais atenta. Deitar cedo. Comer o meu pequeno almoço de prova – não pode faltar as “overnightoats”, os meus superalimentos #shine, a banana, o cacau, pão sem glúten (viajo com eles porque a refeição antes de prova é, para mim, de extrema importância). Quanto ao equipamento, nunca invento: compito com o mesmo que mais gosto de treinar (às vezes o soutien já está velhinho… ou as meias…). Depois vem o aquecimento quevaria, pois, quando compito em Portugal, tenho a equipa comigo e posso cumprir o protocolo de aquecimento do treinador no rolo, mas nas provas internacionais e / ou em que as condições não são as mesmas, aqueço da melhor forma que me seja possível cumprir o plano. Depois, há uns tiques e hábitos que se adquirem na linha de partida – coisas. (risos)

Como é uma semana típica de treino para ti?

Acordar. Xixi. (risos) Pequeno almoço com toping de ronronar de 3 gatos. Equipar. Novo xixi. Sair para treinar. Recuperar. Fisio e / ou ginásio e / ou drenagem (2 a 3x). Social media e ou / hobbies e ou / explicações. Cozinhar. Jantar. Relaxar. Dormir. O típico, de forma muito simplificada, é assim.

Qual a tua parte favorita do treino?

O recuperador, claro! Quem é que não treina a pensar na saborosa bebida proteica?! Há cada sabor e textura! Nossa!

Agora a sério, a minha parte favorita do treino é a da intensidade: quando as pernas já aqueceram e estou pronta para “testar” se sou capaz de uns watts mais…

Fotografia: https://la-leyenda.com/

Qual a parte mais difícil e desafiante do treino que tens que superar?

Fazer a intensidade (per)durar no tempo…

Hoje em dia, quais os desafios que encontras/sentes no ciclismo feminino em Portugal?

O Velho do Restelo e o Sebastianismo. O pessimismo e conservadorismo da nossa sociedade (de que o ciclismo feminino é espectro) são corrosivos (e até letais); a crença desmesurada num messias, num salvador, faz o ciclismo feminino permanecer num marasmo… Estar, feliz, com ambição, a pedalar num ambiente assim é um desafio para as mulheres que querem sair mudá-lo, sair dele, e, por isso, têm de encontrar uma Fuga… O desafio está em encontrar essa fuga a uma série de comportamentos adquiridos num grupo (de elite) e, ainda assim, fazê-lo pela consciência de um ciclismo feminino mais igualitário, de oportunidades e de meritocracia. Sendo uma otimista irreverente, mesmo que D. Sebastião tenha sido assassinado, não vou esperar que regresse para me por uma medalha ao peito.

O que a Fuga representa para ti?

A Fuga, honestamente, é a imagem duma mulher de energia que vive um ciclismo rosa.

O ciclismo é a Fuga (ou será que é a Fuga que é o ciclismo? Até fico baralhada… São simultaneamente Sujeito e Predicativo) e o Rosa somos nós, as mulheres! A Fuga representa uma partilha de informação sobre um ciclismo contemporâneo (uma informação que ainda é muito marcada por uma gramática masculina) que se quer fazer mais feminina, mais anotada de adjetivos no feminino.

A Fuga é um grupo e, como grupo bem fundado e fundamentado, tem uma linguagem comum e um certo #pinkproud que atrai e contagia…

Muito obrigada por esta entrevista.

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